segunda-feira, 29 de junho de 2015

Festival de Inverno e Políticas de Cultura.

Aproxima-se o 25º Festival de Inverno de Garanhuns.
A cidade fica cheia de gente de diversos lugares, tribos, tendências,
parece respirar um ar mais aberto para as diferenças, para o novo,
para a arte que se apresenta de muitas maneiras e por um breve momento,
durante estes dias, torna-se um importante epicentro de difusão cultural,
Palcos para shows musicais, teatro, dança, circo se espalham pela cidade.
Há atividades de moda, fotografia, performances,
literatura e tudo mais que se queira ver,
mas os dias do festival passam rápido...
É neste momento que nossa reflexão se apresenta começando por propor
uma importante abertura para a auto-crítica que não parece muito em voga.
Há quem deteste críticas a cidade e parta logo para levantar slogans
"A cidade que queremos" a " A cidade da Garoa",
" O maior Festival da América Latina" e por aí vai...
Isto não lembra vcs do "Brasil, ame-o ou deixe-o' ? Da ditadura militar?
Não se trata de prática muito presente de detonar a cidade,
a programação do festival, a Fundarpe ou qualquer coisa do gênero,
mas de estabelecer uma crítica propositiva
que nos leve a sair desta situação incômoda de termos um grande
festival durante dez dias e pouquíssima produção cultural,
apoio inexistente aos artistas locais
e pouca presença no cenário cultural do estado e do país,
durante todo o resto do ano.
Uma instituição, um lugar, um povo, um indivíduo que não se pensa
que não lança um olhar apurado sobre si mesmo,
não pode avançar e aperfeiçoar-se.
É sobre isso que quero convidar vc a refletir.
Vamos começar com a imensa imaturidade de não perceber
o festival como um todo e focar quase sempre nas atrações para
a esplanada?
Um evento deste porte com ações de formação excelentes
e grande parte das pessoas e imprensa da cidade
focando apenas nas atrações principais da grande praça?
As atrações que fazem parte do mainstream cultural?
Colocar, por exemplo, os artistas da cidade para tocar as 22h
com uma praça vazia, é sensato? Isto divulga o trabalho deles?
Garanhuns recebeu apresentações maravilhosas de artistas consagrados
no mundo todo e que se apresentaram para gatos pingados
pq a formação estética deficiente não consegue lançar um olhar
sobre aquilo que não é pisado e repisado pela mídia...
Também pq não estavam na "praça principal".
Qual a praça principal?
Pode ser a "Praça da Palavra" não é mesmo?
É este um ponto importante a ser abordado:
Depois de 25 anos de festival é possível perceber
um olhar esteticamente mais educado do nosso povo?
Sim, pq estética, política, religião e tudo o mais se discute...
Conseguimos transformar o ethos social da cidade, profundamente machista
num ethos social abeto a diversidade que percebemos durante os dias
do festival de inverno?
Os 25 anos de festival fizeram da nossa cidade um lugar melhor
para seu povo? Qual o impacto permanente do festival de inverno
nas periferias , por exemplo?
Não basta se preocupar no que vai na praça grande,
como quem se preocupa do que vem da casa grande.
Precisamos de um olhar plural que enfoque:
-A formação permanente dos agentes culturais.
-O apuro do olhar.
- O apoio financeiro, com uma legislação funcional, para a criação
artística local, possibilitando desenvolvimento e autonomia sem apadrinhamentos.
- Um programa eficiente de gestão pública cultural
e gestão pública de equipamentos culturais,
que envolva entre outros, patrimônio material e imaterial, preservação da memória,
funcionamento permanente de equipamentos culturais,
acessibilidade nestes mesmos equipamentos,
competência e visão na gestão.
-Inserir a produção cultural local em circuitos regionais, estaduais e nacionais.
Não é possível mais que a cidade permaneça ausente
das políticas públicas federais e estaduais e sem uma política pública municipal
clara, elaborada com a sociedade civil organizada,
que leve em consideração os anseios do povo e dos artistas locais.
Não é possível que a cidade não se insira de forma vigorosa
nos circuitos culturais do país.
Precisamos pensar a cidade regionalmente e aqui entra também
a importante regionalização do Funcultura, tão falada e que nunca se concretiza.
Este fundo é hoje o principal mecanismo de financiamento a cultura do estado
e tem baixíssima presença o interior...
Sem pressão política a regionalização do funcultura não sai !
Não é possível construir uma política publica de cultura
sem considerar o financiamento dos artistas e dos equipamentos.
Nosso centro cultural está caindo aos pedaços.
Precisamos aprimorar no festival as questões transversais...
Criação artística, gênero, renda, machismo, juventude, tá tudo ligado.
Acredite, a parte onde os hotéis ficam cheios é a menos importante.
Um festival como este pode mover energias estagnadas na cidade,
energias do bem ( que em tempos de fanatismo estamos muito precisados).
Uma espécie de "força vital" para construir, para estruturar um lugar melhor...
Vamos fazer esta discussão? Trazer bons argumentos?
Durante este festival vá para o show de uma banda desconhecida...
Vá ao circo e ao palco de dança...
Vá ao teatro ( seja lá onde ele estiver).
Faça amizade com alguém de fora desta cidade...
Cultive.
Aprecie a criação local. Há aqui bons artistas plásticos, músicos, escritores...
Posso indicar alguns.
Pense se, como e pq o festival precisa fazer de nossa cidade
um lugar melhor para as crianças, os jovens, os velhos, as mulheres.
Misture-se com as diversas tribos da praça, sem preconceitos.
Faça uma oficina cultural ( normalmente acontecem no colégio Santa Sofia).
Que este seja o começo de um bom diálogo.




Um comentário:

Thaysa disse...

Texto fantástico!!
Avante!!!