sábado, 27 de junho de 2015

Não curta, nem compartilhe !

" Agora, aqui me apresento para tratar desse drama.
Se minhas forças faltarem, que seja eu eliminado até o pó, até o esquecimento
que se seguirá a um cerimonial digno..."

Prefiro por escolha e encantamento dizer sim.
É desta palavrinha besta
que me alimento , e tenho estado tão magro.
Hj, porém terei que rejeitá-la em prol de uma outra idéia, percepção
e busca de sentido.
Eu penso na morte ! Sem compromisso ou repugnância.
Penso no sofrimento e na angustia sem o  temor desmedido das novas teologias.
Não me deterei aqui, entretanto. Nem na morte, nem na dor, mas no rito,
na passagem  e na ética que lhe dá sentido.
Talvez, seja este um texto cheio de questionamentos e sem nenhuma certeza.
Não é humildade, não sou humilde, sequer a considero uma virtude...
Penso agora de maneira direta, dura, sobre os mortos... Os assassinados por
grupos terroristas, por bombas, por acidentes de carro, pelo machismo...
Penso nos despedaçados, mutilados, queimados vivos, decapitados...
Sim, eu penso neles e me compadeço.
Não os conheci. Nada sei sobre os seus sonhos.
Que tipo de ritual desejaram ou desejariam, se pudessem,
para celebrar o fim?
E aqui chegamos. Rituais e fim !
Por paradoxal que pareça os rituais vem antes, eles nascem dos vivos,
nos vivos e do desejo de um tratamento decente.
O desejo de uma morte que não seja a passagem para o vexame,
para  o escárnio das massas.
Uma morte que não seja um espetáculo para os sedentos de sangue,
os desocupados, os sem ética.
Desde a antiguidade que expor o morto, suas entranhas, deixar o
corpo sem sepultura, foi visto como forma de vilipendiar,
de desprezar, de humilhar num banquete abjeto.
Pq hoje sentimos tão grande necessidade de expor as feridas alheias?
Pq precisamos compartilhar o sofrimento?
Há um breve e indecente sorriso no canto da boca?
Um salmo imprecatório?
Temos participado de um tal banquete?
É preciso refletir sobre isso.
Sobre esta busca louca por fotos e vídeos que revelem
os corpos mutilados, as pessoas machucadas.
É preciso refletir sobre o espírito que nos anima a ponto
de considerarmos o sofrimento das famílias como coisa
absolutamente secundária.
Refletir sobre este caminho que debaixo de toda sorte
de desculpas procuramos manter, a fim de nos proporcionar um
deleite mórbido.
Há outros caminhos e possibilidades?
Penso que sim e ainda que não tenha a pretensão de apontá-los
quero convidar vc que lê este pequeno texto, a dizer Não.
Não a esta busca pelo sofrimento da semana.
Não a esta busca por corpos despedaçados.
Não a toda a estrutura que alimenta a todos e cada um
com o que há de mais bestial.
Nós não precisamos transformar em espetáculo as desgraças.
É indigno não conceder aos mortos e aos vivos que ficaram
o silêncio, a privacidade, um pouco de paz.
Não, vc não precisa ver as entranhas de quem quer que seja.
Nós estamos afundando na lama.
Há aqui tão grande corrupção...
A morte é um instante apenas.
É passagem pequenina...
Ela espera sua celebração.
Rituais diversos foram criados para isso.
Nós desenvolvemos variadas maneiras de nos despedirmos,
de lamentarmos... Festas, cantos, comidas, lágrimas, tristezas...
Celebramos com dor, com raiva, com resignação e com paz.
Os ritos são nossa mediação.
Eles pedem de nós inteireza na partida, pedem compaixão
pelos que ficaram e perdão para quem foi...
Eles tem ritmo e tempo que não são da tv, da internet...
Perder tudo isso é perder a nós mesmos.
Existir não é viver. Viver é algo mais e deste algo mais
faz parte a morte, a dor, o sofrimento...
E toda possibilidade que se apresentar para a generosidade.
É um olhar para o outro que precisamos?
É um desprender-se?
Estamos despedaçados e a procurar nossas partes nas imagens
da miséria, no compartilhamento das humilhações que outros sofreram.
Vc fica antenado, participa das discussões, pode emitir uma opinião...
Perca esta "oportunidade" !
A coleção de experiências de vida, o voyeurismo mórbido, o estar sempre
por dentro...curriculum vitae, fumaça pura.
Um olhar mais apurado sobre vida, sobre ética, talvez nos ajude.
Um olhar que não tenha medo de buscar as raízes, nem se detenha
diante do complexo ou do simples.
Teremos aqui que dizer não a muitas coisas.
Não a pobreza teológica de vitórias.
Não ao sarcasmo dos intolerantes.
Não a sermos instrumentos de ódio.
Não ao desrespeito com o espaço do outro.
Não ao não ao outro.
Não ao cadáver insepulto na tv, no youtube, no facebook.
Não as tentativas midiáticas de explorar a miséria e os mais fracos.

Ah, eu espero morrer num instante, um instante de vida.
Que me sejam queimados até os ossos e a memória desapareça.
Eu espero morrer a tardinha, num por-do sol entre nuvens.
E que seja possível alguns cantos, encantamento e silêncio.
Eu espero morrer como quem liberta,
como quem não é fardo mas pluma...
Espero que bebam vinho e contem estórias fantásticas
e as crianças comam chocolates.
É meu desejo sincero não ser conhecido na morte.
A morte é um instante pequenino...









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